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Crónicas de uma mãe atrapalhada 2: o nosso anjo azul

Um dia escrevi sobre as aventuras e desventuras das delícias da maternidade e do milagre da vida! Este é a continuação dessas aventuras com um menino especial com autismo e um raro síndrome de deleção 18P

Crónicas de uma mãe atrapalhada 2: o nosso anjo azul

Um dia escrevi sobre as aventuras e desventuras das delícias da maternidade e do milagre da vida! Este é a continuação dessas aventuras com um menino especial com autismo e um raro síndrome de deleção 18P

Natal é quando temos amor- uma mensagem a todas as mães especiais.

Mas que todos podem ler

Este Natal fui-me abaixo. Logo este, quando já tive Natais piores. E o pior não foi ter-me ido abaixo. Foi ter-me ido abaixo na presença do meu filho. Eu que no dia anterior tinha estado a falar no Messenger com uma mãe que tinha o filho em diagnóstico e que lhe tinha dito para não o fazer, senti-me a maior hipócrita nesse momento.

 Depois também me lembrei que lhe tinha dito para não se recriminar se acontecesse, porque acima de tudo somos humanas. Humanas sim. Não somos seres divinos escolhidos por Deus para amparar anjos, somos humanas com forças e fraquezas.

Já tive anos piores do que este, mas foi neste que desabei.

Para quem não sabe somos cuidadores da tia avó dos meus filhos, de 94 anos e nesse dia foi um pouco complicado cuidar dela, que pela idade e personalidade nem sempre colabora.

Sentia-me cansada e abatida e quis descontrair um bocado. Há muito que tinha ideia de fazer uma coroa em EVA para pôr na porta com as nossas mãos e queria muito que o Gonçalo colaborasse. Como o deixei entretido no computador enquanto cuidávamos da avó, quando fui ter com ele tentar fazer a mão, ele reagiu mal e agrediu-me. Ele é bastante carinhoso, mas quando contrariado por vezes pode reagir agressivamente. Não me magoou, mas naquele momento, talvez por me sentir mais cansada ou fragilizada, em vez de lhe agarrar a mão e impedir que o fizesse, ralhando como costumo, o que normalmente resulta não o fiz. Naquele momento anos de frustração desabaram sobre mim e lamento de dor profunda soltou-se-me da garganta por entre lágrimas que não conseguia conter e rasguei a folha de EVA que tinha na mão.

    A minha filha e o pai acorreram logo ao pé de mim para perceberem o que se passava e contei-lhes, inicialmente pensavam que o Gonçalo me tinha magoado, mas não.  Eu expliquei-lhes o que me magoava era que para aquela criança de nove anos era indiferente ser Natal, era indiferente ter uma memória da sua mão, dos Natais, o que me magoava era ficar com a ideia que ele não vivia a magia do Natal que eu vivi em criança. E enquanto me tentavam consolar eu não conseguia parar de dizer:

“Não adianta, ele nunca vai ligar. Para ele nunca vai fazer diferença.” e chorava ainda mais.

 Ao verem-me naquele estado, abraçaram-me e relembraram-me de todas as conquistas. A minha filha foi buscar o irmão para me pedir desculpa e abraçámo-nos os quatro num maravilhoso abraço. E nesse abraço senti a magia do Natal: uma família unida para o bem e para o mal com todas as suas qualidades e defeitos, que ultrapassavam as suas disputas e perdoavam as suas imperfeições, porque o amor é a cola que os une.

E foi aí que a magia aos poucos aconteceu. A minha filha convenceu o irmão a fazer o molde das mãos e eu fiz a coroa com todas as nossas mãos datada com nomes e idades Eles gostaram tanto da coroa, era tão nossa que não me deixaram pô-la na porta.

Depois mesmo sem trocarmos presentes fomo-nos deitar. Tínhamos tido naquele abraço e naquela pequena vitória da coroa um enorme presente.

No dia seguinte, porque como diz o poeta, Natal é quando um Homem quiser, fizemos a troca de presentes.  E o Gonçalo estava feliz e alegre.

Eu tinha trazido umas decorações de colar para pôr na parede e só tinha colado o pai Natal grande, no dia seguinte enquanto me ausentei por momentos, e o Gonçalo ficou sozinho na sala, ele colou sozinho, outro pai Natal, mais pequeno ao lado desse e ligou as luzes da árvore de Natal e o meu coração iluminou-se.

  Ele estava a provar-me no seu jeitinho muito próprio que eu estava errada e que afinal, ele já prestava atenção à magia do Natal. E quando a irmã lhe perguntou como fazia o Pai Natal ele respondeu:” HO HO HO”.  E eu que no dia anterior tinha desabado, senti de novo aquela esperança que sempre me move para a frente. E nessa noite vimos juntos o filme Klaus. No dia seguinte quando o contrariei por qualquer coisa, o Gonçalo de zangado me ia lançar a mão, disse-lhe que ia ficar na lista dos malcomportados e o pai Natal não lhe voltava a levar prendas e ele pediu “Desculpa”.

Refleti muito sobre o que se passou e aprendi que eu devia ter dado mais tempo ao meu filho para ele estar disponível, que sem querer tentei impor-lhe uma disponibilidade física e mental que ele não tinha naquela altura e que estava no caminho certo.

 Eu já o vi não reagir, nem a prendas nem a brinquedos. Eu já o vi ignorar as luzes de Natal e o pai Natal. Eu passei cinco anos sem ouvir palavra mamã e hoje ele diz mãe quando se zanga e mamã quando quer mimo. Por isso não percam a esperança. Sei o quanto custa quando toda a gente celebra, quando os outros meninos vibram com a magia de Natal e os nossos parecem indiferentes a tudo. O meu filho nunca escreveu uma carta ao pai Natal, mas também nunca tinha dito mãe até aos cinco anos nunca tinha ligado às luzes da árvore de Natal.

Por isso não percam a esperança, porque um dia a magia acontece.

E apesar de eu ter dito que não queria deram-me uma prenda, mas a melhor prenda de Natal, essa não tem preço tal é o seu valor, foi o amor da minha família. Sim porque acredito o meu filho também agiu por amor.

11 Grasnados

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