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Crónicas de uma mãe atrapalhada 2: o nosso anjo azul

Um dia escrevi sobre as aventuras e desventuras das delícias da maternidade e do milagre da vida! Este é a continuação dessas aventuras com um menino especial e as suas peripécias.

Crónicas de uma mãe atrapalhada 2: o nosso anjo azul

Um dia escrevi sobre as aventuras e desventuras das delícias da maternidade e do milagre da vida! Este é a continuação dessas aventuras com um menino especial e as suas peripécias.

EU TIVE UMA INFÂNCIA GOURMET, ECOLÓGICA E BIOLÓGICA E NÃO SABIA!!!!

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         A esta altura, já devem estar a pensar, mas que raio de Mamã Gansa que ultimamente só reclama e não sabe escrever de outra coisa.  Desculpem lá, mas de vez em quando destilar umas coisinhas faz bem à saúde e melhora-me a Psoríase. E se as pessoas começarem a perceber umas coisitas sobre viver numa sociedade inclusiva, tolerante e respeitadora também ajuda.

        Apesar da minha filha ter acesso a coisas que eu nunca tive na infância, ela tem inveja da minha infância. E apesar dela se dizer feliz, e dizer que teve uma infância feliz, eu concordo com ela.

        Eu era Maria Rapaz e aventureira, gostava de trepar as árvores e comer fruta diretamente das árvores. As amoras que eu comia eram silvestres e de graça, não embaladas e com um preço de meter medo. As couves, as cenouras, os tomates e as alfaces vinham da horta do quintal dos meus pais. As laranjas, os limões, os pêssegos, os dióspiros e até as folhas de chá, também vinham de lá.

          Se era preciso salsa, hortelã ou coentros fresquinhos ia-se à horta colher uns raminhos. Se era preciso ovos ia-se buscar ao galinheiro e até tive uma galinha branquinha de estimação a “Chinha” com a qual eu brincava quando voltava da escola.  Nunca soube exatamente o destino da pobre “Chinha”, mas temo que não tenha tido um final feliz.  Também tivemos uns patos que eram os animais de estimação do meu irmão, quando desapareceram, disseram-lhe que viajaram para o Alentejo, mas acho que o destino foi outro…

         Na escola como já disse era Maria rapaz e aventureira e passei grande parte dos meus tempos livres em busca do túnel lendário que dizem ligar o Castelo de Almourol a terra e até descobrimos alguns túneis. Pois a escola em que estudei na altura e que hoje não existe mais, era muito perto do castelo. Quando não conseguíamos descobrir túneis, trepávamos para um medronheiro com vista para o castelo e comíamos uns medronhos, e não, nunca nos embebedámos com os medronhos que comemos, ou tínhamos caído da árvore e o medronheiro não era assim tão baixinho.

            Comíamos o que vinha da terra e às vezes sem lavarmos e raramente tínhamos uma gastroenterite ou uma intoxicação alimentar. Às vezes surripiávamos umas laranjas ou umas nêsperas dos quintais alheios, e para nos sentirmos melhor com a marotice, dizíamos que roubar para comer não era pecado. E na verdade, pecado era ver as laranjas e as nêsperas a estragarem-se porque os vizinhos não as apanhavam.

           Os vizinhos também eram excelentes personal trainers quando nos apanhavam, ou quando nos lembrávamos de tocar à campainha e fugir.

          Tínhamos uma alimentação natural e variada   de produção caseira, agora é biológica e também tínhamos bastante atividade física. Jogávamos à carica, aos berlindes e andávamos de bicicleta e carrinhos de rolamentos. E os nossos pais, achavam que cairmos e fazermos arranhões fazia parte de crescer.

           Quando íamos às compras a minha mãe levava os sacos de casa e a maioria dos sacos eram de pano e de lona. Os vegetais e a carne nunca estavam embalados. O feijão, o grão e outras leguminosas ainda se mediam em litros e vendiam-se a granel.

           O padeiro ia levar o pão à porta e não nos cobrava por isso. Deixávamos o saco de pano à porta com a indicação do pão que queríamos e o dinheiro, para o caso de não o ouvirmos apitar, o que era raro, mas acontecia e nessas ocasiões deixava-nos o pão e o troco.  Pagávamos ao leiteiro no final do mês e ele também nos deixava duas garrafas de leite do dia, todas as manhãs ao pé da porta, dava um toque de campainha para avisar e também não nos era cobrado o serviço ao domicílio. Tratávamos o padeiro e o leiteiro pelo nome e a prestação destes serviços fazia parte do seu trabalho quotidiano.  

        Agora todas estas tradições estão a voltar, mas pagamos muito por elas. A comida que não vem das estufas, nem da criação industrial chama-se biológica.  A entrega do pão e do leite à porta agora cobra-se e são serviços gourmet e o uso dos sacos de pano é ecológico e amigo do ambiente e por isso também se cobra mais do que era comum.

           E eu confesso que apesar de tudo gosto que estas tradições voltem, só é pena que agora quem distribui o pão já não seja o padeiro e quem distribui o leite já não seja o leiteiro. E que tudo seja muito mais impessoal e que se cobre muito mais por isso.

         Foi assim que descobri que tive uma infância gourmet, ecológica e biológica e não sabia. E embora a infância dos meus filhos seja bem diferente, espero que este regresso às origens contribua para um futuro melhor e que também tenham memórias de infância felizes. Sei que um dia o Gonçalo me dirá. Tenho fé nisso.

3 Grasnados

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    Mamã Gansa 05.03.2019 20:37

    É verdade só tínhamos uma marca de yogurte e era quase um luxo comê-los. Esta geração tem acesso a muitos recursos, talvez demais como diz Agusto Cury vivemos na era do fast food da informação e os jovens não a digerem. Os liveros lá em casa eeram do Círculo de leitores pagos a prestações ou das seleções do Reader's Digest. Tinha sorte de ter uma biblioteca fixa da Gulbenkian nas traseiras da minha casa e como eu estimava os livros a senhora deixava-me levar sempre mais. Andar nos elevadores ou nas escadas rolantes era um luxo que só tinha quando ia à capital. Mas tocar às campainhas e trepar às árvores era comum. Tínhamos menos coisas, mas éramos muito mais livres. As crianças de hoje não sabem brincar e as que sabem como a filha queixam-se de não ter quem os acompanhe numa brincadeira que não seja estar agarrado ao telemóvel.
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    P. P. 05.03.2019 22:06

    É verdade.
    Até há poucos anos atrás, tinha tanto prazer aos ver os mais pequenos a brincar, no jardim da escola, ao berlinde, escondidas...
    Eu que não gosto de futebol e assumo o quanto as bolas sentem-se atraídas por mim, sobretudo em partes que geram dor intensa, até de ver esta prática já sinto falta. Pelo contrário, se deteto um grupo de alunas, seguramente estão a estudar algum ato de violência para com uma outra ou um rapaz mais frágil. Custa-me tanto, mas tanto a entender. Numa turma, tenho alunas já tão más!
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