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Crónicas de uma mãe atrapalhada 2: o nosso anjo azul

Um dia escrevi sobre as aventuras e desventuras das delícias da maternidade e do milagre da vida! Este é a continuação dessas aventuras com um menino especial com autismo e um raro síndrome de deleção 18P

Crónicas de uma mãe atrapalhada 2: o nosso anjo azul

Um dia escrevi sobre as aventuras e desventuras das delícias da maternidade e do milagre da vida! Este é a continuação dessas aventuras com um menino especial com autismo e um raro síndrome de deleção 18P

Estou-me a borrifar…O que me importa mesmo é que os meus filhos fiquem bem!!!

As aulas recomeçaram agora online e se eles não conseguirem????

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Foto tirada no inicio das aulas.

Estou-me a borrifar…O que me importa mesmo é que os meus filhos fiquem bem!!!

 

Fiquei chocada com a quantidade absurda de trabalhos que  os professores da minha filha do 9ºano lhe enviaram , em que apenas duas se dignaram a  dirigir algumas palavras de consolo e  carinho aos alunos. Alguns nem pediram os trabalhos de volta. Mas fui dizendo à minha filha para os fazer gerindo com prioridade os que pediam os trabalhos e enviaram contactos. Quanto ao meu filho as professoras da educação especial enviaram algumas sugestões das quais apenas consegui realizar uma com o Gonçalo e mal, sempre com ele muito contrariado. Não o forcei, em casa tem mil e uma coisa que o dispersam.

 

 O pior de tudo foi quando por mais cuidado que tivesse com o que viam e ouviam, a minha filha foi parar ao Hospital com uma crise de ansiedade. Após se ter queixado várias vezes de dores no peito e com tonturas e as pulsações que nos  picos chegaram a atingir as 146,  recorremos  à Saúde 24 ,que por sua vez passaram ao Inem, que enviaram uma ambulância  dos Bombeiros da nossa área de residência que a levaram ao Hospital da Estefânia onde à  noite, a partir de uma certa hora, segundo nos disseram estão centralizadas todas as urgências de pediatria da zona de Lisboa, pois já passava das 22 horas.

 

 

Para quem não me conhece sou professora e mãe de dois filhos fantásticos: A Bárbara e o Gonçalo.

A Bárbara sempre foi uma daquelas crianças cheias de vida,  gatinhou e falou  cedo e desde aí como digo nunca mais se calou.  Adora ler, é no geral boa aluna, aprende rápido e quando tem de faltar recupera rápido e nunca tive razões de queixas dela na escola, pratica tiro com arco e toca Violoncelo a sua paixão para a vida. Mas…  a Bárbara tinha 9 anos quando foi parar aos cuidados intermédios do Hospital Fernando Fonseca com uma pneumonia, que não era nada porque ela não tinha febre e eu senti-me a pior mãe do mundo porque adiei e pensei que era manha dela, para não ir à escola, mas não, ela estava mesmo doente.

Desde aí a minha filha é acompanhada porque tem uma asma grave com relatórios no processo que os professores insistem em ignorar. Falei duas vezes com a Diretora de Turma que em nenhuma das vezes fez registos de nada do que lhe transmiti. A Bárbara tinha estado doente pouco antes do fecho das escolas e celebrou o seu 15ºaniversário  no dia em que as escolas fecharam. Assim, tenho uma filha adolescente supostamente neurotípica que é grupo de risco.

Depois tenho o Gonçalo que exige muita atenção. O Gonçalo tem autismo derivado de um síndrome genético raro, o Síndrome de deleção do Cromossoma 18, tem dez genes apagados, o que  está na origem do seu autismo, infeções auditivas e atraso de desenvolvimento. Mas o Gonçalo embora verbalize pouco graças a Deus é autónomo para se mexer e um pouco hiperativo. A juntar isto ainda tive de trazer um pouco de urgência para casa, a tia avó deles de 92  anos porque não encontrei um lar decente.(Agora digo, felizmente, mas disto falarei noutra altura).

 

Com a crise de ansiedade da Bárbara e sabendo eu infelizmente muito bem o que é isso, a nossa preocupação como pais redobrou. O Gonçalo ressentia-se e foram muitas as noites em claro cá em casa a tentar regularizar o sono de ambos.

Após só ter adormecido às sete da manhã, levantei-me ao meio dia. Era supostamente o dia de regresso às aulas.  Pego no telemóvel que tinha estado a carregar e vejo que tenho uma chamada não atendida de um número desconhecido, ligo de volta, pois aguardo contacto dos terapeutas do Gonçalo. Não atendem, passados uns minutos o telemóvel toca. Era a Diretora de Turma da minha filha a perguntar se tinha visto o mail que me tinha enviado. Não, não vi -respondi. Além de ter reclamado da catadupa de trabalhos enviados sem qualquer palavra de humanidade, reclamo dos testes em que não deram uma segunda oportunidade à minha filha quando faltou por estar doente. E acrescento: Sabe porque não vi? Porque tenho dois filhos que não dormem. E fica a saber que a minha filha durante “ as férias” foi parar ao Hospital com uma crise de ansiedade, ela não fica só doente durante as aulas, mas nas férias não  dão pela ausência dela. O meu filho que tem autismo , está alterado e tem os ritmos todos trocados e nem dorme , nem nos deixa dormir (e nem lhe falo que ainda tenho uma idosa de 92 anos a cargo). E eu meti um mês de baixa porque me é impossível trabalhar com eles assim. Vai-me desculpar a honestidade, mas neste momento interessa-me que os meus filhos fiquem bem , que regularizem os seus ritmos, seu sono e o seu sistema nervoso. Obrigada pela atenção quando puder vou ver o mail. Mas neste momento estou-me a borrifar para as aulas quero é ver os meus filhos bem!!!!

E nem quero saber se os meus colegas ficam muito chocados  com as  minhas palavras. Ter conhecimento de desabafos de mães que saem para imprimir fichas aos filhos com problemas de aprendizagem, integrados na educação especial que nem adaptadas são, revolta-me. Já para nem falar que o Ministério da Educação lançou um documento orientador onde não existe nem uma linha de orientação sobre as sempre esquecidas crianças da educação especial.

Na nossa família decidimos o que o mais importante era sobreviver a esta pandemia que nos assombra.

Eu perdi um ano de escola quando fui retirada da escola por causa da guerra colonial, mas sobrevivi e isso permitiu-me chegar aqui.

 Pois sim, eu sou professora e digo:

As aulas recomeçaram agora online e se os meus filhos  não conseguirem????

Estou-me a borrifar…O que me importa mesmo é que os meus filhos fiquem bem!!!

E espero que os meus alunos  e as suas famílias também!!!!

 

 

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