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Crónicas de uma mãe atrapalhada 2: o nosso anjo azul

Um dia escrevi sobre as aventuras e desventuras das delícias da maternidade e do milagre da vida! Este é a continuação dessas aventuras com um menino especial e as suas peripécias.

Crónicas de uma mãe atrapalhada 2: o nosso anjo azul

Um dia escrevi sobre as aventuras e desventuras das delícias da maternidade e do milagre da vida! Este é a continuação dessas aventuras com um menino especial e as suas peripécias.

Carta à mãe da Leonor!!!!

 Esta carta é uma resposta a uma passagem infeliz, do testemunho desta senhora com a qual apesar de tudo sou solidária.

Cara mãe da Leonor,

Percebo a sua indignação, mas como mãe de uma criança com autismo, pergunto-lhe o que há de indigno na sua filha encontrar paz na sala dos autistas? O que é indigno é ela não encontrar paz noutros sítios. Claro que a sua filha tem direitos.  Ainda bem que as crianças com autismo dão paz à sua filha porque não têm maldade e não fazem juízos de valor. E sabem porquê? Não, porque eles não entendam o mundo, mas porque são puros como provavelmente o é a sua filha.

 Infelizmente os autistas não merecem tanta atenção como a senhora julga, a começar pelo seu juízo de valor. Convido-a a ler alguns dos meus testemunhos ou de outros pais com crianças com autismo para a senhora perceber como foi infeliz esta sua alusão à  falta de dignidade , referindo-se aos autistas,  como quer que não discriminem a sua filha se escreve um texto com uma discriminação implícita?

 Luto para que todos tenham direito à inclusão, isto inclui a sua filha, ou outras crianças como a sua filha, porque independentemente do que se passe com a criança, não gosto de ver crianças discriminadas.

 A senhora não me conhece, mas tenho amigos de todos os meios e quadrantes. Acho o preconceito inimigo da evolução.

 Eu entendo que esta questão da identidade de género preocupe alguns pais, só quem nunca passou pelo interior de uma escola é que nunca teve noção dos perigos que isto possa acarretar. Já tive que entrar numa casa de banho de rapazes para defender uma criança. Sabe que este gesto na minha profissão é muito perigoso, poderia acarretar para mim uma série de falsas acusações gravíssimas????Poderia discorrer muito sobre isso mas não é o meu objetivo.

 E agora diz-me que eu não sei o que é estar na pele da mãe de uma criança transsexual como a Leonor e eu respondo-lhe que não sei, da mesma forma que a senhora não sabe o que é estar na peleda mãe de uma criança com autismo como o meu filho ou como outras mães.

 Referiu-se à sala das pessoas com autismo de uma forma depreciativa. Sabe porque ultimamente se fala tanto no autismo? Porque mães, pais e familiares como eu, se cansaram de ver os filhos segregados, maltratados, humilhados, alvos de bullying, discriminados.(Pensa que é fácil para nós???) e decidiram fazer como dizem os brasileiros “botar a boca no trombone” e falar de autismo e desmitificar para que os filhos sejam aceites.

Mas sabe o que não é digno? É que exista a necessidade da sala dos autistas,  por não haver profissionais que os possam acompanhar na sala  de aula, e que, pessoas com a senhora que lutam pela sua filha não ser discriminada, se refiram à sala do autismo como falta de dignidade. E a seguir tenham comentários irónicos em relação ao autismo. Porque se escondeu na sua concha até agora?

As crianças transsexuais existem e eu sou a favor que elas possam escolher a que casa de banho vão.  Da mesma forma que eu entro na casa de banho dos Homens com o meu filho, quando preciso.   E eu sou a favor que elas tenham um lugar digno na sociedade, mesmo que corram o risco de estar perto de crianças com autismo que tanto incomodam a senhora.

Eu   decidi vir a publico defender os direitos do meu filho e não aguardei a polémica de uma lei para o fazer.  E faço-o sem ofender ninguém. Não me refiro depreciativamente a ninguém.

E terei muito prazer em conhecer a Leonor e tratá-la como uma princesa se ela assim o quiser, mas olhe que sou mãe de uma criança com autismo, não sei se para si seria pouco digno. Até porque corre o risco de assistir a uma crise sensorial do meu filho (corriqueiramente interpretado como má educação) e olhe que não é pera doce.

Por último acho que temos de evoluir, mas antes das leis saírem as casas de banho deveriam ser adaptadas. Afinal se há estabelecimentos comerciais com casas de banho unissexo, porque não pode haver nas escolas? Mas tudo tem de ser pensado e adaptado. Acredite, até para a segurança da sua filha.

Quando li o seu artigo até estava a pensar escrever em defesa de crianças como a sua, porque mais que um blogue sobre o meu filho e sobre o autismo, este pretende ser um blogue inclusivo.

Mas vai-me desculpar, diz o povo que” quem não se sente, não é filho de boa gente” e eu senti-me, porque sou mãe de uma criança com autismo e luto pela inclusão, e apoio a sua causa, agora acho que o fez, de forma infeliz, não intencional, talvez, porque às vezes temos o coração ao pé da boca, neste caso nas pontas dos dedos, mas infeliz.

 Para terminar desejo que tudo corra pelo melhor para si e para a Leonor, eu e o Gonçalo vamos continuar nesta roda viva de consultas, terapias, e luta pela inclusão, mesmo que algumas pessoas achem as pessoas com autismo pouca dignas…

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