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Crónicas de uma mãe atrapalhada 2: o nosso anjo azul

Um dia escrevi sobre as aventuras e desventuras das delícias da maternidade e do milagre da vida! Este é a continuação dessas aventuras com um menino especial com autismo e um raro síndrome de deleção 18P

Crónicas de uma mãe atrapalhada 2: o nosso anjo azul

Um dia escrevi sobre as aventuras e desventuras das delícias da maternidade e do milagre da vida! Este é a continuação dessas aventuras com um menino especial com autismo e um raro síndrome de deleção 18P

O regresso às aulas do Gonçalo

Afinal quem é a mamã?

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Os dias 11 devem ter sinas estranhas. O 11 de Março de 2020 ficou marcado pela “bomba “que a OMS lançou nesse dia a palavra Pandemia. Nesse dia o meu coração parou.

Na minha memória ecoavam ainda declarações recentes “Não temos de nos preocupar”, “A Pandemia não chega cá”, mas chegou. No dia 12 tinha coisas marcadas e ainda foste para a escola. O meu coração ficou apertadinho, se já era difícil explicar aos outros meninos, como te ia explicar a ti????

No dia 13 de Março já não regressaste. Tal qual verdadeira Mamã Gansa resguardei-te debaixo da minha asa.  Mas as preocupações invadiam-me.

Como explicar que não poderias voltar a ver os amigos, brincar no parque correr na praia, abraçar e beijar aqueles que sabem que tu falas a linguagem dos afetos, a língua da meiguice e da ternura.

Perdeste ainda mais que muitos meninos, ficaste sem as tuas terapias que tanta falta te fazem e um dos nossos locais preferidos é-te agora negado.

Mas tu és uma caixinha de surpresas e tens a capacidade de ser feliz com as coisas mais simples e apesar destes meses não terem sido fáceis.

 Aguentaste-te como um herói em casa. Adaptaste-te as aulas online para grande surpresa minha. Acarinhaste-me sempre que me sentias triste. Foram tão valiosos os teus abraços e beijinhos. Regalei-me de estar contigo e com a tua irmã. Infelizmente alguns acontecimentos fizeram com que este tempo não fosse ainda mais feliz.

E agora o regresso. O meu ao trabalho. O teu à tua escola, às pessoas que te acolheram de braços abertos quando mais precisei.  Eu não queria abdicar de estar contigo, mas sei que é necessário, que te faz bem. Mas este mundo que nos obrigou a ter as máscaras na cara não é o mundo que ninguém sonhou para os seus filhos. E o meu coração estava apertadinho, queria-te debaixo da minha asa, resguardado no ninho, mas tenho de te deixar voar, ainda para mais agora, nesta pandemia, que te condicionou os voos, mas não serei eu a condicionar-tos mais. E fui-te levar.

Assim que a professora chegou, tu olhaste para ela e chamaste-lhe mamã e não. não fiquei triste nem zangada pelo contrário, o meu coração ficou à larga porque isto significa o afeto que lhe reconheces, afinal ela é um pouquinho e este ano vai ser mais que nunca a tua mamã da escola.

Mas rimo-nos e eu disse “É Professora, não é mamã”, olhaste para as duas como se estivesses confuso  e puxaste-me a máscara comos e quisesses verificar quem era a mamã. Podia dizer que eras um desnaturado, mas sei que te apegas aos afetos que te dão e que tu dás e que esta é a tua forma de dizeres “gosto de ti de professora como a minha mamã da escola”.   Corrigi porque quero que evoluas e que saibas dizer Professora.

Quando te fui buscar todos os meus receios e todos os meus medos foram aliviados pelo teu sorriso de felicidade. Percebi que regressaras aquela que também já há alguns anos um pouquinho a tua casa.  E quando te perguntei como correu a escola, tu fizeste um “fixe” com o dedo e um grane sorriso.

Agora é pôr em prática a lição que a tua síndrome sp18 e o teu autismo me ensinaram:

Viver um dia de cada vez!

Bom ano letivo para ti meu filho.

E aqui entre nós que ninguém nos ouve podes chamar mamã à professora que eu não me importo  e sei que ela também não.