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Crónicas de uma mãe atrapalhada 2: o nosso anjo azul

Um dia escrevi sobre as aventuras e desventuras das delícias da maternidade e do milagre da vida! Este é a continuação dessas aventuras com um menino especial com autismo e um raro síndrome de deleção 18P

Crónicas de uma mãe atrapalhada 2: o nosso anjo azul

Um dia escrevi sobre as aventuras e desventuras das delícias da maternidade e do milagre da vida! Este é a continuação dessas aventuras com um menino especial com autismo e um raro síndrome de deleção 18P

A minha Liberdade

Obrigada 25 de Abrl

Quando me pediram uma reflexão sobre liberdade a primeira coisa que me veio à cabeça foi este refrão da canção

“Liberdade, Liberdade, quem a tem chama-lhe sua,

Eu não tenho liberdade nem de pôr o pé na rua”

Felizmente não é bem assim que eu vivo e sou grata por isso.

Embora na minha infância tenha tido falta de liberdade, a liberdade de ir à rua, a liberdade de ir à escola foi-me retirada pela Guerra colonial.   Como todas as guerras, uma guerra estúpida sem sentido.   Posso estar grata por ter tido apesar de tudo liberdade para conhecer outras pessoas, outras culturas, outras paisagens e liberdade para viajar.

Posso dizer que tive uma infância com uma liberdade que poucas crianças hoje terão, Liberdade de brincar na rua, liberdade de trepar às árvores,  liberdade de ir e vir da escola a pé.

Mas a liberdade de que venho a falar até agora é  uma liberdade física por assim dizer.

Contudo existem vários tipos de liberdade. E sim, todos conhecemos, mas por vezes não lhes damos valor. Como a Liberdade de expressão, que me permite dizer as baboseiras que me ocorrerem, ler os livros que eu quero, escrever a minha opinião num blogue sem me preocupar com as consequências. Mas permitir-me-á essa liberdade de expressão dizer tudo o que me ocorre sem pensar duas vezes?

Será correto usar a minha liberdade de expressão para inferiorizar, outras pessoas, os seus valores, as suas  culturas crenças ou memórias???

 É claro que se for para denunciar costumes desumanos talvez faça sentido, afinal a evolução da Humanidade fez-se lutando contra alguns destes costumes, mas ao exercermos a nossa liberdade deveremos entender quando devemos ou não respeitar a liberdade dos outros.

Recordou-se recentemente o drama de Auschwitz.  E uma das polémicas era sobre o respeito ao memorial e das fotos que os turistas tiravam como podem ver aqui. O facto de ser uma realidade longínqua para alguns levou a que tirassem umas fotos descontraídas , talvez porque sem maldade na altura, não entendessem o que aquele local pretende manter vivo. A  memória dos horrores que o  Ser Humano é capaz de infligir aos outros seres humanos. O que estava aqui em causa era que essas pessoas são livres de tirar fotos, mas não de desrespeitar  uma memória que causou tanto sofrimento com essas fotos.

Isso levou-me também a refletir na liberdade de pensamento. Eu costumo dizer que em História não quero  seres “decorantes” quero seres “pensantes”. Costumo dizer que é perigoso não se pensar sobre as coisas, sobre o risco de fazermos o ditado  e entrarmos em Ditadura. Como explicar que o ditado é a ausência da liberdade do pensamento? Recordo-me as juventudes em que os Jovens cresciam a acreditar que tinham a liberdade de humilhar outros e tirar vidas. Choca-me que uma das mais cruéis guardas de Auschwitz tivesse vinte anos quando foi enforcada por crimes à Humanidade.  Ela cometeu-os porque foi privada desde cedo da liberdade de pensar pela sua própria cabeça, porque decorou e acreditou que o que lhe ditaram era o que estava correto. Este é o grande perigo dos ditados,  da ausência de liberdade de pensamento.  Podia ser alguém intrinsecamente com maus ímpetos ou  estes teriam sido originados porque o seu pensamento foi formatado desde cedo, sem liberdade para formatar a sua personalidade?

Mas ainda há outro tipo de liberdade que pouco se fala no nosso país, e esta liberdade financeira, creio que poucas pessoas no nosso país podem sentir que têm liberdade financeira.  Em famílias como a minha em que um dos elementos do agregado familiar necessita de cuidados especiais e o elemento que mais contribuía se encontra em situação de desemprego, confesso que não posso dizer que usufruamos dessa liberdade. E tenho conhecimento de situações bem mais desfavoráveis que a nossa.

Por último, que já me alonguei, há uma liberdade em que cada vez me identifico mais a liberdade de espírito, de viver plenamente cada momento, é uma liberdade das mais valiosas e a não foi a  primeira lição que tive na vida, sobre essa liberdade, mas a mais valiosa foi-me trazida pelo meu filho, quando o vejo feliz a correr, a rodopiar sobre si próprio, a brincar da sua forma particular em que não se importa com o que os rodeiam possam pensar,  a verdade é que ele me tem transmitido essa liberdade de espírito que eu já tinha esquecido, que estava adormecida dentro de mim com a luta pelo diagnóstico, a liberdade de ser a mãe que quero ser para o meu filho, e não a mãe que os outros querem que eu seja.

A liberdade da mãe que “uiva” feliz no carro, porque sente que o seu filho é um ser feliz livre de preconceitos.

Às vezes pensamos que somos livres mas estamos presos a preconceitos e até a memórias ou objetos.

E afinal, a Liberdade é o que sentimos quando nada mais importa quando somos felizes com o que nos rodeia.

 Texto de minha autoria 14 de Fevereiro 2020

 

 Este texto não menciona o 25 de Abril,mas  a conquista da Liberdade que esta revolução nos trouxe creio que se consegue "ler nas entrelinhas, até porque sem o 25 de Abril eu não teria a Liberdade de o escrever.

Este texto foi escrito a convite da maravilhosa MJP para o seu Magnífico blogue que celebra a  Liberdade  ttodos os dias e publicado na sua Rubrica A liberdade de...

Obrigada MJP por  me teres inspirado a escrever texto.