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Crónicas de uma mãe atrapalhada 2: o nosso anjo azul

Um dia escrevi sobre as aventuras e desventuras das delícias da maternidade e do milagre da vida! Este é a continuação dessas aventuras com um menino especial e as suas peripécias.

Crónicas de uma mãe atrapalhada 2: o nosso anjo azul

Um dia escrevi sobre as aventuras e desventuras das delícias da maternidade e do milagre da vida! Este é a continuação dessas aventuras com um menino especial e as suas peripécias.

Ontem senti-me o anjo da Guarda de uma criança.

 Cada vez me questiono mais que mundo é este em que vivemos, que todos nós comovemos e somos muitos solidários nas redes sociais e depois na vida do dia assisto a situações que me deixam a pensar qual será o futuro da Humanidade.

 Fui a um banco levantar dinheiro.  Enquanto aguardava na fila para a Caixa Multibanco, uma criança que não deveria ter muito mais de dois anos brincava com um balão cor de laranja. A porta do Banco abriu-se porque entraram mais pessoas e a criança saiu.

“Cuidado que a criança com o balão foi para a rua” -alertei eu.

A minha voz é bem sonante acreditem!

 

Ninguém reagiu. De início pensei, se calhar saiu com alguém. Mas eu não tinha visto ninguém com a criança. Não sei se por instinto maternal, por instinto solidário, ou por fazer parte da minha profissão olhar pelos filhos de outrem, fiquei de olho na criança.

A porta do banco dá para um largo onde costumam passar muitos carros. A criança brincava com o balão no passeio. Até que, fosse o vento ou fosse a criança que atirou o balão com mais força, o balão ia indo para a estrada e vi a criança ir atrás dele. Felizmente conseguiu apanhar o balão logo no início da estrada.  Apercebo-me então que a criança tinha realmente saído sozinha, sem ninguém. Antes que o vento ou outro acontecimento levasse o balão para a estrada, saí da fila onde me encontrava, e chamei a criança:

-Olha a tua mamã, está a chamar-te! Olha tens de vir ter com a tua mamã!

A criança olhou para mim agarrou no balão e entrou de novo no banco.

A mãe continuava sem aparecer:

- Onde está a tua mamã?-

A criança brincava com o balão e sorria, mas não me respondia.  

-Onde está tua mamã? -insisto.

Nisto a mãe aparece e agarra na criança.

Digo-lhe:

-Olhe que o seu menino estava sozinho na rua há algum tempo. Isto é penso que é um menino.

Ela sorri e limita-se a dizer-me:

-Sim é um menino. Obrigada.

 

Pega na criança e volta para onde estava com a criança.

O senhor de idade que tinha entrado quando deixei o meu lugar na fila para ir chamar a criança, deixa-me retomar o meu lugar na fila. Faço o meu levantamento e espreito para onde está a mãe com a criança.  A mãe agarrada ao telemóvel fala com mais duas  pessoas que estavam com ela. A criança está ao lado dela a brincar com o balão. Ninguém lhe liga. Olho, abano a cabeça e estou prestes a explodir e quase que me sai:

“Olhe amanhã vou a um funeral de uma criança. O seu filho podia ter sido atropelado e ninguém dava por nada.”

Abano a cabeça e digo para mim própria “Não vale a pena”.

Saio chocada com a indiferença das pessoas que estavam na fila comigo que tal como eu viram a criança sozinha e não quiseram saber. Alguns deles seriam certamente avós. Penso: se aquela criança morresse atropelada e ninguém fizesse nada, não seríamos de certa forma todos cúmplices da sua morte?

Saio chocada com a atitude de indiferença da mãe e de quem estava com ela. A estranha (eu) que lhe tirou o filho da estrada e lho devolveu, podia ser a estranha que com a mesma facilidade lhe tivesse oferecido outro balão e o levasse para sempre se fosse mal-intencionada.

Olho para a mãe e para a criança uma última vez. O rosto enfiado no telemóvel. Nem um olhar para criança que ao seu lado brincava com o balão.

 Saí, mas toda a cena, não me saiu da cabeça.  Não gosto de julgar as outras mães, mas honestamente três pessoas e ninguém percebeu que a criança saíra? E depois de tudo a mãe continuava com o nariz enfiado no telemóvel e nem olhava para a criança. Tive pena da criança de todos os perigos que correu.

 E as pessoas da fila, à minha frente, nenhuma se preocupou com a criança.

-Não tenho obrigação de cuidar dos filhos dos outros- dizia-me o meu marido explicando a falta de reação, depois de eu lhe contar o sucedido.

E eu:

- Não, não tens. Mas era uma criança e alguém tinha de a proteger. E todos sabemos como é fácil uma criança nos fugir num segundo. Ou achas que agi mal?

Ele respondeu-me:

-Claro que não! Mas não foi esse o caso.

E eu sei, que, independentemente do que disse, ele agiria como eu.

Ontem senti-me o anjo da guarda daquela criança, mas será que a próxima vez que for atrás do balão laranja, alguém o irá chamar?

 E se fosse o meu filho teria um anjo da guarda?

 Pergunto-me que mundo é este tão frio onde cada um só se preocupa com o seu umbigo e só é solidário para parecer bonito nas redes sociais?